Quando o remédio é a palavra – Sobre saúde e sensação de bem-estar

 Texto publicado pela Jornal A Voz da Serra em versão impressa e online (http://www.avozdaserra.com.br/)

04_07_2014_06_04_09_f1A psicóloga e psicodramaticista Tereza Cristina Rocha é dona de um vasto currículo profissional e acadêmico. Basta dizer que durante 23 anos foi psicóloga do Ministério da Marinha e, depois que se aposentou, vem levando a cabo um trabalho da maior importância aqui em Nova Friburgo. Pós-graduada em Terapia Comunitária pela Universidade Federal do Ceará, Tereza tem diversos cursos de especialização, entre eles o de tratamento da Dependência Química no consulado dos EUA e de atendimento terapêutico de portadores de doenças crônicas e de vítimas de violência doméstica, entre outros.

Hoje em dia, integra a EccoSocial da Região Serrana, uma rede que trabalha no sentido de promover mudanças nas realidades pessoais e coletivas. Para tanto, utiliza uma técnica denominada Terapia Comunitária Integrativa, que busca estimular a partilha de experiências de vida no sentido de prevenir e/ou compreender o adoecimento físico, emocional e social. A psicóloga explica como esta técnica é aplicada e sua eficácia aqui neste Ponto de Vista.

Tereza Cristina Rocha

Não é de hoje que ouvimos reclamações de pessoas que qualificam a saúde como o calcanhar de Aquiles de nossa cidade. Além das doenças que maltratam a população, o índice de acidentes, a dependência de drogas e a violência aumentam a cada dia. O que estaria acontecendo? Qual a responsabilidade de cada um de nós neste contexto? O que buscamos ou de fato queremos?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a saúde seria “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças”. Completo bem-estar? Seria isso possível ou não passaria de uma utopia? Na verdade, ter ou estar com saúde requer uma visão ampliada da vida.

O equilíbrio entre diferentes fatores é que definem a qualidade do viver. Para tanto, o que precisamos fazer? Como evitar as doenças? Onde estaria o salvador da pátria capaz de mostrar o caminho ou de resgatar as pessoas da aflição cotidiana, como num passe de mágica?

Infelizmente, eu não tenho as respostas. Como disse o poeta Thiago de Mello, “tive um chão (mas já faz tempo), todo feito de certezas, tão duras como lajedos. Agora (o tempo é que fez), tenho um caminho de barro, umedecido de dúvidas”.

Por outro lado, fiquem certos, a dúvida liberta. Instiga a observação, ao questionamento, à criação e à transformação. As questões são antigas e exigem, em primeiro lugar, reflexão. É preciso remexer a memória para depois conseguirmos resgatar o sentido das coisas simples, talvez antigas também, moldando-as como o barro. Atenção à fala do povo, expressa através de gerações, que traz em si um saber normalmente esquecido.

Nada de convicções. Nietzsche já dizia: “Toda convicção é uma prisão”. E não é? Apesar de transmitirem segurança, as certezas iludem e cegam, fazem crer que tudo é claro, óbvio e único. Ou seja, não permitem que a gente identifique e aceite outras formas de ver a mesma coisa. Deixamos de relativizar, de contextualizar o que vimos e percebemos.

A Terapia Comunitária Integrativa (TCI), proposta terapêutica genuinamente brasileira, criada pelo psiquiatra Adalberto Barreto, professor da Universidade Federal do Ceará, encara a dúvida como um caminho. Até com pessoas simples, sem formação acadêmica, é possível elaborar reflexões profundas que permitem desenvolver habilidades para facilitar o autoconhecimento e a compreensão da própria história.

A partilha de experiências de vida, proposta básica da TCI, mostra diferentes formas de caminhar. Ouvindo relatos de outros, aprendemos a dialogar com o nosso corpo para identificar e entender os sinais que ele emite. E, a partir daí, aceitar outras práticas não convencionais de cuidado e atenção à saúde.

“Seja bem-vindo, olê-lê, seja bem-vindo, olá-lá, paz e bem pra você, que veio participar…” Assim começam as rodas de TCI. A presença de todos é bem-vinda porque cada pessoa presente traz a riqueza de suas experiências, de sua sabedoria, de suas crenças e tradições, que nem sempre são reconhecidas e valorizadas. Para nós, tudo é estruturado com base na prática e definido de forma encadeada, numa sequência de envolvimento crescente.

Acolher é a palavra-chave. O clima amoroso e de respeito mútuo valoriza cada um dos participantes e sua sabedoria, aquela que todos nós temos, mas que muitos acham que não possuem. Celebrar a vida é o convite inicial.

Conosco, o remédio é a palavra. “Quando a boca cala, o corpo fala. Mas quando a boca fala, o corpo sara.” Tudo aquilo que é trazido pelos participantes é agregado como material que enriquece e dá poder às pessoas e à comunidade ali reunidas. Vale lembrar que muitas vivências e sentimentos não são, necessariamente, “falados” através de palavras, mas de cantigas, provérbios, mitos, poesias e lendas.

Mas, para um bom desenvolvimento da conversa, é preciso seguir algumas regras. Mesmo os mais resistentes compreendem com o tempo que as regras envolvem uma forma de relacionamento e convivência saudável. Todos são reconhecidos como cidadãos e seres humanos iguais, com direitos e deveres.

O que confere homogeneidade ao grupo é o sentimento, a dor e sofrimento. Não rotulamos nem diferenciamos “doentes” e “normais”, o que põe fim ao preconceito, aos estereótipos e discriminação. Isto facilita a reflexão, a criatividade e o restabelecimento de vínculos que geram a compreensão necessária para a mudança. Quem já experimentou sentimentos semelhantes fala o que sentiu e o que fez para superar.

Assim, o grupo torna-se um continente acolhedor, que dá confiança e suporte a quem se expôs. Confirma-se um movimento saudável que exercita a cidadania e estimula a solidariedade. Com isto, as pessoas vão identificando projetos comuns, abrindo espaços comunitários que fortalecem os vínculos sociais e atendem a suas reais necessidades. Praticam nas rodas de que participam a valorização, o aconchego e a confiança.

Neste espaço de convivência, todos são corresponsáveis no enfrentamento dos sofrimentos e problemas do cotidiano. A Terapia Comunitária nasceu parceira, integrando o conhecimento acadêmico e a sabedoria popular. Atende indivíduos, famílias e comunidades onde o sofrimento humano é o contexto norteador.

É surpreendente a força e a potência do grupo. A generosidade solidária e a capacidade que os relatos em grupo têm de transformar pessoas e comunidades são encantadoras. Neste espaço acolhedor onde o abraço massageia os corações, o respeito e a aceitação das diferenças facilitam a descoberta dos potenciais de cada um, participamos de um mundo mais humano.

Afinal, todos temos uma capacidade infinita de identificar habilidades e recursos capazes de transformar o sofrimento e a dor em aprendizado pessoal e social, valorizando as pequenas conquistas. E de encarar cada pedra no caminho como um processo de real importância para alcançarmos a superação.

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