Intersetorialidade

    Intersetorialidade é a articulação entre sujeitos de setores sociais diversos e, portanto, de saberes, poderes e vontades diversos, para enfrentar problemas complexos. É uma nova forma de trabalhar, de governar e de construir políticas públicas que pretende possibilitar a superação da fragmentação dos conhecimentos e das estruturas sociais para produzir efeitos mais significativos na saúde da população.
     Os problemas complexos estão presentes em todos os contextos e ação intersetorial vem sendo proposta e construída ao sul e ao norte do Equador. Em países em que há um avanço no processo democrático está em consolidação e naqueles onde existe uma profunda desigualdade social, a construção da intersetorialidade como um novo arranjo para intervenção tem o potencial de se converter em uma estratégia democratizadora, que possibilita a abertura de novos espaços de participação, a constituição de novos sujeitos, o empoderamento e a inclusão de novos atores sociais no processo de decisão política e de gestão dos espaços públicos (Santos, 2000).
     Os limites e esgotamento das formas hegemônicas de intervenção na saúde para impactar os graves e complexos problemas de saúde apresentados na sociedade moderna; as iniquidades sociais e a falta de integralidade da atenção têm levado os grupos preocupados com os problemas e as necessidades sociais de saúde da maioria da população à busca de novos arranjos e articulações para o enfrentamento desses problemas. O tratamento das necessidades e dos problemas vivenciados pelas pessoas demanda uma visão integrada dos vários aspectos/processos que constituem a vida destas pessoas (saúde, emprego, educação, habitação, liberdade política, etc). Por exemplo, ter uma boa saúde, além de ser uma realização em si mesma, contribui tanto para o aumento da produtividade como para a capacidade de converter rendas e recursos em qualidade de vida.

Construindo a intersetorialidade
     Como processo organizado, coletivo, a ação intersetorial não é um processo espontâneo. Depende de uma ação deliberada, que pressupõe o respeito à diversidade e às particularidades de cada setor ou participante. Envolve a criação de espaços comunicativos, a capacidade de negociação e também trabalhar os conflitos para que finalmente se possa chegar, com maior potência, às ações. Ações que não necessariamente implicam na resolução ou enfrentamento final do problema principal, mas que implicam na acumulação de forças, na construção de sujeitos, na descoberta da possibilidade de agir (Campos,2000).
     A intersetorialidade envolve também a expectativa de maior capacidade de resolver situações, de efetividade e de eficácia, pois, em todas as experiências reconhece-se claramente que ela se constrói sobre a necessidade das pessoas e setores de enfrentar problemas concretos. São as questões concretas que mobilizam as pessoas; são elas que criam o espaço possível de interação e de ação. Assim, apesar de o processo ser em si importante, é fundamental também que se produzam resultados parciais, palpáveis, perceptíveis para retroalimentar setores e pessoas participantes.
     Para desencadear uma atuação intersetorial, é muito importante que o objeto proposto da ação seja uma questão que de fato mobilize e diga respeito a muitos outros setores, muito embora alguns dos resultados concretos da ação intersetorial possam ser medidos através de indicadores de saúde. É o tema que define a possibilidade de ação intersetorial de fato como: qualidade de vida, exclusão social, violência, preservação ambiental.
    Muitas das iniciativas intersetoriais têm partido ou contam com uma participação ativa importante de atores oriundos do setor saúde. De modo geral, percebe-se que a consciência das limitações da ação setorial está mais clara no setor saúde. A compreensão da determinação social do processo saúde-doença, a percepção muito clara do impacto de ações não especificamente setoriais sobre a saúde (saneamento básico, urbanização por exemplo) e da impotência setorial diante de certos problemas como a morbidade e mortalidade por causas externas, fazem com que o setor saúde esteja mais mobilizado em propor a ação e a articulação intersetorial.
Um outro elemento que muitas vezes contribui para que a saúde provoque mais enfaticamente as articulações intersetoriais é a constatação cotidiana dos limites do setor para enfrentar os problemas de saúde, bem como o acúmulo do setor desde a base e na esfera municipal, tendo em vista a história do processo de Reforma Sanitária Brasileira – a constituição e funcionamento dos conselhos e a presença ativa de múltiplos atores “da base” na definição das políticas de saúde são exemplos dessa hipótese Há, no entanto, muito que avançar em todos esses aspectos dentro da própria saúde e de sua articulação com os demais setores.
Conclusão
     Os espaços da intersetorialidade são espaços de compartilhamento de saber e de poder, de construção de novas linguagens, de novos conceitos que não se encontram estabelecidos ou suficientemente experimentados. Há necessidade de um exercício permanente de paciência e de negociação, pois ninguém está acostumado a ficar pensando no assunto que é do outro; além disso, algumas vezes se percorrem caminhos já esgotados setorialmente, outras vezes surgem questões novas que jamais seriam pensadas do ponto de vista setorial.
     Os caminhos da construção da intersetorialidade são tortuosos, pois o novo é novo, mas também é incompleto, cheio de imperfeições e desafios, vem sempre carregado do velho e precisa sempre ser reinventado outra vez. E aprender a conviver com a incerteza, com a insegurança de não dispor de todas as respostas é parte importante do processo. Por isso mesmo, esses não são caminhos fáceis; envolvem sofrimento e confusão, ao lado do prazer da descoberta de novos olhares, novas possibilidades e novas saídas.

Retirado de: http://www.saude.rio.rj.gov.br/cgi/public/cgilua.exe/web/templates/htm/v2/view.htm?editionsectionid=30&infoid=2516

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